Acompanhamento do Projeto Asas da Florestania - Zona Rural do Acre, municípios de Sena Madureira, Bujari e Rio Branco - Julho de 2009
O projeto Asas da Florestania, do governo do estado do Acre, utiliza a metodologia do Telecurso da Fundação Roberto Marinho em escolas rurais do Acre, em diversos municípios. Faz parte da metodologia o acompanhamento dos professores, uma formação em serviço após o início de cada módulo do projeto. No ensino fundamental são três módulos, no ensino médio quatro.O objetivo das visitas é apoiar o professor, esclarecer suas dúvidas, fortalecer sua prática. Conversando com os alunos temos uma visão mais ampla de como a metodologia está sendo vivenciada, quais são as maiores dificuldades e desafios, quais as maiores conquistas. Encontramos professores à vontade, tirando de letra e outros angustiados, inseguros. Alguns se adaptam mais facilmente a uma nova metodologia, identificando-se com ela, modificando sua prática. Outros, mais arraigados aos antigos métodos de ensino relutam em experimentar o novo e precisam de incentivo, motivação.
De Cabo Frio, RJ, onde moro atualmente, até Rio Branco é uma longa jornada. De ônibus ou táxi até a rodoviária, dali, 3 horas de ônibus até o Rio de Janeiro. Da rodoviária no Rio mais um ônibus ou táxi até o aeroporto. Uma aeronave com escala em Brasília, outra em Porto Velho e finalmente Rio Branco. São 12 ou 14 horas de viagem. Aterrissamos no início da madrugada. O micro-ônibus do hotel atrasou, mas enfim chegamos ao nosso destino.
Em carro traçado, como eles dizem por lá, pegamos a BR 364 e depois 45 Km de Ramal, como eles denominam as estradas de terra floresta adentro. Muitos desses ramais foram abertos pelos seringueiros. Suas histórias são emocionantes. Com uma "Poronga" na cabeça (uma lamparina a querosene fixada em armação que se coloca na cabeça) entravam na mata de madrugada, um facho de luz iluminando seu caminho, rasgando as árvores ao longo de muitos quilômetros para na volta recolher o látex em balde de flandres e recomeçar tudo de novo na madrugada seguinte. A histórias desses homens é incrível, permeada de aventuras e tragédias. Em Rio Branco, no Museu da Borracha, no Palácio Rio Branco, na Casa dos Povos da Floresta e no Memorial dos Autonomistas a gente fica sabendo um pouco da saga dos brasileiros que saíram de diversos estados, principalmente do NE, em busca de trabalho e oportunidades. De Galvez a Chico Mendes, muitos homens e mulheres, índios e não índios, lutaram, adoeceram e morreram com garra e fibra para ter dignidade e o direito à vida e ao trabalho.
Sem falar na floresta...
Do avião a gente se impressiona com as dimensões do país e com o tamanho da destruição da floresta. Em algumas rotas, o que se vê é o solo recortado, quadriculado e colorido de diferentes tons do verde ao marrom, dependendo do tipo de plantio e pasto. Em outras a gente ainda sobrevoa a floresta por longo tempo, vendo os rios serpenteando, cortando a selva.
Mas quando a gente penetra de carro nos ramais o que mais encontra é pasto. Gado, muito gado.


Aqui e ali um gigante moribundo, uma castanheira isolada. Umas ainda vivas, magníficas, outras já ressequidas, desfolhadas, à espera da moto-serra. Tem horas que dá vontade de chorar. Ao longe um resto de floresta e pasto ao redor em vários estágios. Ainda com toras calcinadas, já limpas, o pasto verdinho e os bois perplexos, olhando a gente passar. Fazendas e mais fazendas.





De vez em quando cruzamos com alguns caminhões imensos, com toras gigantescas de madeira. Não sei se certificadas ou não. Mas um ser vivo que precisou de 100, 200 anos pra ficar daquele tamanho em minutos sucumbe nos dentes da moto-serra. E o resto vira carvão, com uma rapidez estonteante.


Lá dentro do que um dia foi floresta, um assentamento, um povoado e uma escola. Algumas ainda sem energia elétrica, muitas ainda sem água, sem banheiro. Crianças e jovens que ajudam suas famílias no roçado, no plantio e na colheita de subsistência.

Professores que deixaram suas casas e famílias para passar períodos de uma semana, quinze dias ou mais dormindo numa rede na sala de aula, morando de favor na casa de alguém perto da escola até a construção dos alojamentos. Voltam pra casa, matam a saudade dos filhos, do cônjuge e voltam. Gente que não esperou ter tudo pronto pra arregaçar as mangas e enfrentar o desafio de trabalhar para diminuir a distorção idade-série, o analfabetismo funcional, com dados assustadores na maioria dos estados brasileiros. Aos poucos o "Luz para Todos" vai chegando, plantando postes e fios por todos os lados, permitindo a instalação de bombas pra trazer água da cacimba, instalação de computadores, melhorando a qualidade da merenda escolar, de vida dos moradores.
No primeiro dia de acompanhamento visitamos duas escolas no mesmo ramal. As histórias dos professores e dos alunos nos emocionam. Algo está acontecendo ali. Crianças e professores estão escrevendo suas histórias em memoriais que compartilham uns com os outros. Ali registram sua história de vida, o que estão aprendendo, o que acontece na sala de aula, na comunidade. Fazem questão de mostrar suas produções, seus cartazes na parede. Alguns ensaiaram um poema, um cordel pra nos homenagear.
Quando termina o turno da tarde, a solidão se agiganta, oprimindo o coração de alguns professores, isolados, distantes de suas famílias. Até o dia seguinte, quando a algazarra da meninada toma conta de todos os espaços.


Na ida, depois de uma curva, Matilde e eu tivemos a impressão de ver a imagem de um santo em tamanho real. Na volta, fizemos questão de parar pra conferir. Era um cupinzeiro! Mas que parecia uma imagem de santo, parecia!

No caminho um mico cruzou a estrada em nossa frente, a toda velocidade. Estávamos num trecho de floresta. Se chovesse, disseram, teríamos que ficar por lá. Mas quando a água desceu, já estávamos a caminho e a chuvarada durou pouco, não impedindo nossa passagem.
No dia seguinte fui convocada para outra equipe. Fui com Antonita para os ramais de Bujari e Rio Branco. Ramal do Riozinho, Ramal Barro Alto, Ramal Jarinal, Ramal Espinhara, Ramal Linha Nova. Sitônio, nosso motorista, foi um fiel escudeiro. Depois que descobriu que eu gostava de fotografar, vira e mexe dava uma parada estratégica para mais um clique. Disse a ele que nunca tinha visto uma seringueira ao vivo e que sendo a segunda vez no Acre, não seria possível voltar pra casa sem que pudesse ver uma de perto. Ficou prometido que até o final da semana eu veria uma seringueira.
Em uma escola fomos recebidas com uma apresentação de dança. Em tempos de "Caminho das Índias", um solo de dança indiana nos deixou impactadas. A menina, de pele marrom, cabelos negros longos e lisos como as indianas, reproduziu ao som da trilha sonora da novela, com muita leveza os gestos, o movimento de olhos e cabeça, que aprendeu assistindo a TV. Seu sonho é ser dançarina... Outro menino disse que seu maior desejo era ter e tocar um violão.
Isso ficou na cabeça de Antonita. De volta a Rio Branco, fomos atrás de uma loja de instrumentos. E não é que ela comprou um violão pro menino? Ficamos imaginando seu rostinho surpreso com aquele presente. "A maior alegria é poder proporcionar a alegria de alguém", disse Antonita. Baita lição de vida que tocou as pessoas que participaram deste momento. Antonita deu conselhos aos professores iniciantes: "elogiar sempre, elogiar muito, pontuar tudo de bom que cada um fizer. Quando criticar, criticar o coletivo - Nós precisamos melhorar em tal aspecto"...
Os professores precisam lidar com situações difíceis como a sexualidade à flor da pele dos jovens, que acaba deixando muitas meninas grávidas, abandonando os estudos. Drogas, alcoolismo na comunidade e religião são também grandes desafios.
Os alunos precisam caminhar muito até chegar na escola. É comum alguém andar dez quilômetros todos os dias para estudar. É preciso muita força de vontade para vencer os obstáculos e concluir o ensino fundamental ou o médio.






A semana foi terminando. Muito barro, chão de terra, cheiro de mato. Muito boi e boiada, floresta abatida. E muito brasileiro e brasileira fazendo acontecer, escrevendo sua história.
Era sexta-feira e Sitônio nos levou a um seringal em Bujari. Árvores pequenas, enxertadas com as árvores da Malásia, mas ainda Assim um seringal.
















Ei Chris,
ResponderExcluirFico emocionada ao ler seus relatos.
Quem passou por isso jamais esquece... e aprende muito.
Questionamos valores e que valores!
Em breve terei tb um diário de bordo em formato de vídeo e compartilharei!
Beijocas
Andrea
Olá Chris............Adorei seus comentários, fui informado do projeto e me empolguei em conhecer. Sou Linc em quimica e no final do ano que vem, estarei arrumando as malas para ir. Abraços e talves nós nos veja-mos lá.
ResponderExcluirProf.Junior
juniorbatuta@ymail.com
professores, legal... é assim que se faz, é assim que se transforma o mundo. Parabéns. joana darc
ResponderExcluirOlá Chris, li todo seu memorial, é assim que falamos aqui no Acre, hoje sou professor do Asas da Florestania, eu trabalhava com o ensino regular e tive a oportunidade de receber o convite e passar a faser parte do grupo de professores desse maravilhoso projeto, não sou
ResponderExcluiracriano, sou alagoano mas vivo aqui desde 1982, amo essa terra e tenho o maior orgulho de diser que sou professor, e hoje ainda mais por que trabalho com pessoas que não tiveram oportunidade, com isso me considero um vencedor e quero mais muito mais. Fico feliz por sua experiencia e que experiencia, se você me altorizar levarei seu relato para meus alunos do ensino médio sei que eles irão gostar de ouvir, e valorizarão tudo o que eles tem. Valeu parabéns. Profº Genivaldo Pinheiro. Email gpgenivaldo@gmail.com