segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Zona Rural do Acre, municípios de Sena Madureira, Bujari e Rio Branco - Julho de 2009


Acompanhamento do Projeto Asas da Florestania - Zona Rural do Acre, municípios de Sena Madureira, Bujari e Rio Branco - Julho de 2009


O projeto Asas da Florestania, do governo do estado do Acre, utiliza a metodologia do Telecurso da Fundação Roberto Marinho em escolas rurais do Acre, em diversos municípios. Faz parte da metodologia o acompanhamento dos professores, uma formação em serviço após o início de cada módulo do projeto. No ensino fundamental são três módulos, no ensino médio quatro.O objetivo das visitas é apoiar o professor, esclarecer suas dúvidas, fortalecer sua prática. Conversando com os alunos temos uma visão mais ampla de como a metodologia está sendo vivenciada, quais são as maiores dificuldades e desafios, quais as maiores conquistas. Encontramos professores à vontade, tirando de letra e outros angustiados, inseguros. Alguns se adaptam mais facilmente a uma nova metodologia, identificando-se com ela, modificando sua prática. Outros, mais arraigados aos antigos métodos de ensino relutam em experimentar o novo e precisam de incentivo, motivação.



De Cabo Frio, RJ, onde moro atualmente, até Rio Branco é uma longa jornada. De ônibus ou táxi até a rodoviária, dali, 3 horas de ônibus até o Rio de Janeiro. Da rodoviária no Rio mais um ônibus ou táxi até o aeroporto. Uma aeronave com escala em Brasília, outra em Porto Velho e finalmente Rio Branco. São 12 ou 14 horas de viagem. Aterrissamos no início da madrugada. O micro-ônibus do hotel atrasou, mas enfim chegamos ao nosso destino.

Em carro traçado, como eles dizem por lá, pegamos a BR 364 e depois 45 Km de Ramal, como eles denominam as estradas de terra floresta adentro. Muitos desses ramais foram abertos pelos seringueiros. Suas histórias são emocionantes. Com uma "Poronga" na cabeça (uma lamparina a querosene fixada em armação que se coloca na cabeça) entravam na mata de madrugada, um facho de luz iluminando seu caminho, rasgando as árvores ao longo de muitos quilômetros para na volta recolher o látex em balde de flandres e recomeçar tudo de novo na madrugada seguinte. A histórias desses homens é incrível, permeada de aventuras e tragédias. Em Rio Branco, no Museu da Borracha, no Palácio Rio Branco, na Casa dos Povos da Floresta e no Memorial dos Autonomistas a gente fica sabendo um pouco da saga dos brasileiros que saíram de diversos estados, principalmente do NE, em busca de trabalho e oportunidades. De Galvez a Chico Mendes, muitos homens e mulheres, índios e não índios, lutaram, adoeceram e morreram com garra e fibra para ter dignidade e o direito à vida e ao trabalho.
Sem falar na floresta...
Do avião a gente se impressiona com as dimensões do país e com o tamanho da destruição da floresta. Em algumas rotas, o que se vê é o solo recortado, quadriculado e colorido de diferentes tons do verde ao marrom, dependendo do tipo de plantio e pasto. Em outras a gente ainda sobrevoa a floresta por longo tempo, vendo os rios serpenteando, cortando a selva.
Mas quando a gente penetra de carro nos ramais o que mais encontra é pasto. Gado, muito gado.




Aqui e ali um gigante moribundo, uma castanheira isolada. Umas ainda vivas, magníficas, outras já ressequidas, desfolhadas, à espera da moto-serra. Tem horas que dá vontade de chorar. Ao longe um resto de floresta e pasto ao redor em vários estágios. Ainda com toras calcinadas, já limpas, o pasto verdinho e os bois perplexos, olhando a gente passar. Fazendas e mais fazendas.



De vez em quando cruzamos com alguns caminhões imensos, com toras gigantescas de madeira. Não sei se certificadas ou não. Mas um ser vivo que precisou de 100, 200 anos pra ficar daquele tamanho em minutos sucumbe nos dentes da moto-serra. E o resto vira carvão, com uma rapidez estonteante.




Lá dentro do que um dia foi floresta, um assentamento, um povoado e uma escola. Algumas ainda sem energia elétrica, muitas ainda sem água, sem banheiro. Crianças e jovens que ajudam suas famílias no roçado, no plantio e na colheita de subsistência.


A casa de uma família da localidade que acolhe a professora






 Professores que deixaram suas casas e famílias para passar períodos de uma semana, quinze dias ou mais dormindo numa rede na sala de aula, morando de favor na casa de alguém perto da escola até a construção dos alojamentos. Voltam pra casa, matam a saudade dos filhos, do cônjuge e voltam. Gente que não esperou ter tudo pronto pra arregaçar as mangas e enfrentar o desafio de trabalhar para diminuir a distorção idade-série, o analfabetismo funcional, com dados assustadores na maioria dos estados brasileiros. Aos poucos o "Luz para Todos" vai chegando, plantando postes e fios por todos os lados, permitindo a instalação de bombas pra trazer água da cacimba, instalação de computadores, melhorando a qualidade da merenda escolar, de vida dos moradores.
No primeiro dia de acompanhamento visitamos duas escolas no mesmo ramal. As histórias dos professores e dos alunos nos emocionam. Algo está acontecendo ali. Crianças e professores estão escrevendo suas histórias em memoriais que compartilham uns com os outros. Ali registram sua história de vida, o que estão aprendendo, o que acontece na sala de aula, na comunidade. Fazem questão de mostrar suas produções, seus cartazes na parede. Alguns ensaiaram um poema, um cordel pra nos homenagear.
Quando termina o turno da tarde, a solidão se agiganta, oprimindo o coração de alguns professores, isolados, distantes de suas famílias. Até o dia seguinte, quando a algazarra da meninada toma conta de todos os espaços.



































Na ida, depois de uma curva, Matilde e eu tivemos a impressão de ver a imagem de um santo em tamanho real. Na volta, fizemos questão de parar pra conferir. Era um cupinzeiro! Mas que parecia uma imagem de santo, parecia!



No caminho um mico cruzou a estrada em nossa frente, a toda velocidade. Estávamos num trecho de floresta. Se chovesse, disseram, teríamos que ficar por lá. Mas quando a água desceu, já estávamos a caminho e a chuvarada durou pouco, não impedindo nossa passagem.


No dia seguinte fui convocada para outra equipe. Fui com Antonita para os ramais de Bujari e Rio Branco. Ramal do Riozinho, Ramal Barro Alto, Ramal Jarinal, Ramal Espinhara, Ramal Linha Nova. Sitônio, nosso motorista, foi um fiel escudeiro. Depois que descobriu que eu gostava de fotografar, vira e mexe dava uma parada estratégica para mais um clique. Disse a ele que nunca tinha visto uma seringueira ao vivo e que sendo a segunda vez no Acre, não seria possível voltar pra casa sem que pudesse ver uma de perto. Ficou prometido que até o final da semana eu veria uma seringueira.
Em uma escola fomos recebidas com uma apresentação de dança. Em tempos de "Caminho das Índias", um solo de dança indiana nos deixou impactadas. A menina, de pele marrom, cabelos negros longos e lisos como as indianas, reproduziu ao som da trilha sonora da novela, com muita leveza os gestos, o movimento de olhos e cabeça, que aprendeu assistindo a TV. Seu sonho é ser dançarina... Outro menino disse que seu maior desejo era ter e tocar um violão.
Isso ficou na cabeça de Antonita. De volta a Rio Branco, fomos atrás de uma loja de instrumentos. E não é que ela comprou um violão pro menino? Ficamos imaginando seu rostinho surpreso com aquele presente. "A maior alegria é poder proporcionar a alegria de alguém", disse Antonita. Baita lição de vida que tocou as pessoas que participaram deste momento. Antonita deu conselhos aos professores iniciantes: "elogiar sempre, elogiar muito, pontuar tudo de bom que cada um fizer. Quando criticar, criticar o coletivo - Nós precisamos melhorar em tal aspecto"...
Os professores precisam lidar com situações difíceis como a sexualidade à flor da pele dos jovens, que acaba deixando muitas meninas grávidas, abandonando os estudos. Drogas, alcoolismo na comunidade e religião são também grandes desafios.
Os alunos precisam caminhar muito até chegar na escola. É comum alguém andar dez quilômetros todos os dias para estudar. É preciso muita força de vontade para vencer os obstáculos e concluir o ensino fundamental ou o médio.










A semana foi terminando. Muito barro, chão de terra, cheiro de mato. Muito boi e boiada, floresta abatida. E muito brasileiro e brasileira fazendo acontecer, escrevendo sua história.
Era sexta-feira e Sitônio nos levou a um seringal em Bujari. Árvores pequenas, enxertadas com as árvores da Malásia, mas ainda Assim um seringal.





Proler - Boa Vista do Tupim, BA - novembro de 2000

Leitura e Escrita: Ainda desafio para o próximo milênio
I Encontro de Leitura da Biblioteca Municipal de Boa Vista do Tupim - BA


Dessa vez a aventura foi no interior da Bahia, em Boa Vista do Tupim. Fui de avião até Brasília, onde troquei de aeronave para seguir até Lençóis, na Chapada Diamantina, um lugar que sempre tive loucura para conhecer.
O vôo foi meio atribulado, com bastante turbulência. Chegou a parecer que estávamos andando de carroça numa estrada de terra esburacada...
A visão da chapada é algo indescritível. O Cânion, iluminado pela luz dourada do sol baixo, projetando sombras imensas é de uma beleza surpreendente.
A pequena aeronave pousou e em poucos instantes os passageiros se dispersaram. Em alguns minutos os funcionários saíram do balcão de atendimento, apagaram as luzes, deixando acesa apenas uma arvorezinha de Natal. Não havia ninguém me esperando. Eu não tinha o telefone de ninguém... Estava começando a anoitecer. Liguei para casa, pedindo que meu marido fizesse contato com a Casa da Leitura. Instantes depois voltei a ligar. Era feriado no Rio e não havia ninguém por lá. O aeroporto estava fechando, não haveria mais vôos naquele dia. Falei com um guarda que, solícito, arranjou um catálogo telefônico de Boa Vista. Havia o telefone de uma farmácia e de alguns assinantes, mas nenhum número da prefeitura. Liguei pra farmácia, perguntei se por acaso eles não tinham o telefone da prefeitura. Nada. Um homem que estava sentado no saguão pediu licença e disse ser taxista. Se eu quisesse, ele poderia me levar a Lençóis, vinte minutos de distância. Eu poderia passar a noite e no dia seguinte decidir o que fazer. Quase aceitando a proposta, quando um rapaz esbaforido vem chegando e pergunta se sou a dona Christianne.
Desculpou-se pelo atraso, dizendo que furou o pneu de seu carro. Teríamos que ir a um borracheiro, pois enfrentaríamos pela frente duas horas e meia de viagem. Eu poderia ficar no aeroporto (já às moscas) ou ir com ele. E lá fui eu. O automóvel era um Passat ou algo do gênero, bem rodado. E enquanto rumávamos para a oficina, a noite caiu. Lá estava eu com dois estranhos, perdida numa borracharia no interior da Bahia. Pensei em minha filha, com cinco anos naquela época, e no trabalho que eu dava pro meu anjo da guarda. Coitado, não dou sossego pro pobre! Aos poucos fui descobrindo que estávamos na BR 242, que liga Salvador a Brasília. Remendo feito, seguimos viagem. A buraqueira me fazia sacudir no banco de trás e o motivo, me disse o motorista, é que a estrada é perigosa, por onde transitam caminhões e carretas carregadas em alta velocidade para fugir dos assaltantes, que costumam esconder-se no matagal perto das grandes crateras que obrigam os motoristas a reduzir a velocidade! Por isso ele chamou um colega para acompanha-lo.
Respirei fundo e procurei relaxar. Seja o que Deus quiser, pensei com meus botões. De vez em quando olhava pro céu, que o breu da noite fazia cintilar com zilhões de estrelas. Há beleza em tudo, é uma questão de estar atento...
Horas depois chegamos. Ficaria hospedada na casa do prefeito, que estava conversando com seus correligionários na varanda quando cheguei. Na manhã seguinte ele e a mulher viajaram, deixando-me entregue aos cuidados de Maria, um amor de pessoa, grande cozinheira, com quem conversava na hora do almoço e no final da tarde, curtindo a rede da varanda.


Minha oficina - Leitura e Imagem - foi uma delícia.
Os professores são muito comprometidos e conscientes de sua realidade. A região passava por reforma agrária, com muitas propriedades ocupadas pelos Sem Terra, com acampamentos e assentamentos improvisados com barracas de plástico preto. Alguns professores moravam em um povoado de onde saiam a pé por estradinhas de terra até uma vicinal, onde conseguiam carona até a BR para pegar um ônibus ou outra carona. Saltavam mais adiante, para pegar outra vicinal e outro caminho de terra, às vezes no lombo de um jegue (custava R$ 5,00 um jegue naquela época). Vida dura. Pra dar aula sob uma lona, ou sob uma árvore, com pouco ou nenhum material, sem livros nem material de apoio. Na maioria das vezes era preciso dormir no assentamento. Leitura de mundo, leitura de imagem. A oficina precisou ser reestruturada, pois meu planejamento inicial, diante da realidade encontrada, não fazia muito sentido. Mas planejamento é assim. Precisa ser revisto, refeito, jogado fora pra começar tudo de novo. Que bom!
Sem livros de imagem, começamos a ler o entorno, a paisagem da janela, a paisagem relembrada pelos caminhos, o que se vê ao redor e dentro de um assentamento... O que vemos na TV. A quem interessa, como os fatos são manipulados e apresentados.
Conseguimos algumas revistas e começamos a pensar na estrutura de um telejornal. Em grupos, cada qual com uma seção, fomos definindo as notícias, as matérias, as entrevistas, as chamadas. Uma mesa com as pernas pro alto virou a tela da TV e as imagens foram construídas com recorte, colagem e desenhos. O grupo produziu um telejornal crítico, denunciando os desmandos de uma Bahia governada por ACM. Nos divertimos muito nos três dias do encontro, refletindo sobre os desafios para o próximo milênio na sala de aula.







(Será que o homem foi mesmo à lua?)






O encontro terminou no meio da tarde e meu vôo seria no dia seguinte, às quatorze horas. Liguei para uma pousada em Lençóis, consegui um ótimo desconto para uma estadia de menos de 24 horas e lá fomos nós pela 242, dessa vez com dia claro. Pude avaliar melhor o tamanho da "roubada". A estrada é um monte de crateras cercadas por um pouquinho de asfalto e as crianças, correndo muitos riscos, ficam tapando os buracos com terra e pedindo dinheiro para os motoristas. Carcaças corroídas de caminhões e automóveis nas ribanceiras são a constatação do descaso do governo com as rodovias do país.
Chegamos em Lençóis ainda com luz do dia. Larguei a mala no quarto e saí pela cidade, deslumbrada, tirando fotos das fachadas dos casarões coloniais, viajando no tempo na chapada Diamantina.


A Pousada Lençóis

Quando escureceu totalmente, voltei pra pousada. Linda Pousada Lençóis. Meti-me na piscina, com uma cervejinha gelada na mão e o céu dos milhares de estrelas sobre a cabeça.
Um sentimento de profunda gratidão tomou conta de mim. Que privilégio viajar pelo Brasil trabalhando com professores, compartilhando sonhos, esperanças, as dificuldades do caminho e de repente estar numa piscina de água morna, relaxante, podendo pensar na vida e agradecer a oportunidade de ali estar, em paz.
Acordei bem cedinho para poder aproveitar ao máximo o pouco tempo de estadia. A vontade de explorar o cânion era enorme, ver de perto uma cachoeira ou gruta daquelas anunciadas nos folhetos turísticos. Mas o risco de fazer isso sozinha é imenso e minha loucura não chega a tanto! (Pra alívio do anjo da guarda, que tem que estar com as penas sempre muito bem escovadas!).
Lençóis é um lugar muito lindo, cheio de História. Merece ser visitado com calma.
Saí de lá depois do almoço, feliz, com a sensação de missão cumprida.







domingo, 1 de novembro de 2009

Proler em Florania, RN - setembro de 2000


A cidade de Florânia, vista do alto



Já tinha participado de um encontro do Proler em Natal, RN e foi com grande alegria que recebi o convite para o primeiro encontro de Florânia, cidadinha no sertão do Seridó, alguns quilômetros depois de Currais Novos, uma das cidades importantes da região.
Cheguei um dia antes, ficando hospedada na casa da coordenadora do comitê de Natal, profa. Erileide Rocha. Hospitaleira, fez questão de me levar pra um passeio na orla e pra comer caranguejos numa praia badalada. No dia seguinte, uma "Besta" nos pegaria e ao restante do grupo, por volta das quatro da manhã, rumando para o interior. Depois longas horas de viagem, chegaríamos para a abertura do evento.
O motorista atrasou, se perdeu pelas ruas de Natal em seu roteiro para buscar os outros professores. O dia foi amanhecendo e entre bocejos e cochilos o sol foi subindo e as paisagens se sucedendo a mais de cem quilômetros por hora.



Sertão do Seridó até então era uma mancha amarelada no Atlas, nas aulas de geografia. Sempre tive curiosidade de conhecer a região. Muita estrada, muito chão. Zona da mata, planalto da Borborema, chapada do Araripe. Currais Novos, a entrada para Caicó, Florânia.



A chuva dos últimos dias, coisa rara, tinha feito a vida retornar. Nas poças, lagoas e pequenos açudes ao longo da estrada, pássaros se refrescando, patinhos nadando. Tudo verde, exuberante, por pouco tempo, segundo disseram, até a água secar.


Quando chegamos, sol alto, calor abrasador, o galpão do Clube Municipal lotado à nossa espera.

Nosso grupo de professores

Com o tema "Leitura e Escrita: ainda desafios para o próximo milênio", o encontro trouxe professores de diversas localidades da região para as palestras e mini-cursos. Minha oficina "Leitores de Histórias" atraiu muitos interessados. Como palestrante na abertura do encontro, me aproximei da platéia, procurando estimular um clima informal, de conversa, troca de experiências e informações. A gente que chega de longe precisa ter a humildade de ouvir, escutar e aprender com aqueles professores que andaram muitos quilômetros na caçamba de um caminhão adaptado para o transporte de pessoas, numa localidade aonde o jornal só chega na casa das professoras com muito atraso, embrulhando as verduras da feira... Na biblioteca da escola, livros antigos, revistas velhas e mil vezes manuseadas pelas mãos ávidas por informações. Começamos com a história do próprio nome, que alguns desconheciam e vamos aprendendo que muitos são de famílias grandes, de oito, nove irmãos, todos com a mesma inicial no nome. Alguns homenageando santos da devoção da mãe, da avó, agradecida pelo milagre alcançado num parto difícil, numa gravidez de risco. Muitos têm nomes criados pelos pais, uma parte do nome de um com outra parte do nome do outro, outros homenageiam um avô ou avó querida, um parente falecido. E as histórias vão se desenrolando. Como os pais ou avós lá chegaram, de onde vieram. Com poucos livros para ler, ou mesmo sem nenhum, que histórias contar? E vamos descobrindo segredos daquele lugar distante, perdido no sertão do Brasil. Foi lá que começou a lenda da Santa Menina, que tem distribuído curas e milagres para a população. A menina saiu de casa para ir à escola. Saiu cedo, pois precisava caminhar algumas horas na madrugada escura até chegar à sala de aula, coisa comum no nosso país de distâncias descomunais. Perdeu-se. Não chegou na escola, não voltou pra casa. Muitos dias ficou desaparecida até encontrarem seu corpinho recostado sob uma árvore. Intacto, sem sinais de deterioração. E assim permaneceu e está até hoje, em um esquife de vidro na capelinha construída ao lado da Igreja no alto do monte. Peregrinos fazem a via crucis, carregando pedras morro acima, pagando promessas. Lá do alto avista-se um horizonte quase infinito, sob a proteção de Frei Damião e Santa Menina.



A fazenda







A cidade não tinha hotel ou pousada e fomos acomodados na casa da fazenda do vice-prefeito. Assim que descemos da Besta naquela fazenda de princípios do século XIX, um portãozinho de ripas de madeira abriu sozinho, deixando-nos intrigados. Com um rangido, fechou assim que o último de passou. "O melhor quarto é o da Carioca", alguém disse com ironia. Passamos pela varanda, cruzamos uma sala e seguimos por um corredor escuro e comprido, com várias portas. Diante de uma delas, alguém empurrou com força e disse ser o meu quarto. Puxei a colcha desbotada e pude ver formigas, aranhas e outros pequenos insetos saindo em disparada, atônitos com a visita inesperada. Ia dizer que ali eu não ficava e já não encontrei ninguém. Dei meia volta, arrastando minha mala de rodinhas e encontrei na sala os homens armando suas redes e no cômodo ao lado, as mulheres armando as suas.



Fiquei em pé, sem saber o que fazer até que estouraram as gargalhadas. "A carioca levantou poeira fugindo do quarto especial!" E eu então pedi que tratassem de me arranjar uma rede, pois sozinha lá no fundo do corredor eu não ficava. O capataz apareceu com uma, que me acolheu muito bem naqueles três dias do encontro. À noite, acomodados nas redes ficamos ouvindo música e conversando até que o sono chegou. Mas a lâmpada, pendurada num fio comprido que vinha lá do alto do telhado de telhas vãs ficou acesa. Alguém fez o comentário - "quem é que vai apagar a luz?" Após alguns instantes sem resposta, a lâmpada se apagou. Um silêncio denso caiu sobre nós com a escuridão e um gaiato do grupo então disse "êêêêêêê..." e todos caímos na gargalhada.
Quando o dia começou a clarear, acordei com o canto da passarinhada. Pelas frestas do telhado, uma luz dourada foi iluminando nosso ambiente e algo mágico aconteceu. Na parede do fundo formou-se a imagem invertida da paisagem lá de fora. Durou pouco, alguns instantes, mas o princípio da fotografia aconteceu ali, diante dos meus olhos, deitada numa rede em um casarão centenário. E o dia acendeu de vez deixando aquela imagem insólita pra sempre na minha mente.
No dia seguinte, perguntaram onde estávamos hospedados e quando souberam, entreolharam-se de modo suspeito. Quando indagamos o motivo daquela atitude, disseram ser a fazenda mal assombrada. O fantasma de um tenente foi diversas vezes visto por lá. E contaram que tempos atrás, a matriarca da família acoitou um tenente foragido. Encontrado por seus perseguidores, foi assassinado e sua alma nunca descansou. Na mesma hora lembramos do portãozinho "automático" e da lâmpada que se apagou e constatamos que o tenente deveria ter ficado feliz com nossa presença, tratando-nos com carinho e atenção. Mas que dava um certo arrepio na hora de passar pelo corredor escuro pra ir ao banheiro lá isso dava.
Estávamos em véspera de eleições municipais. À noite haveria dois comícios. O prefeito, que apoiou o encontro, era candidato à reeleição. A oposição, visivelmente com maior poder aquisitivo, organizou uma carreata no centro da cidade: três carros circulavam com pessoas jovens, gritando e empunhando bandeiras do partido. Eram os "Bicudo" e os "Bacurau". Não lembro quem era quem. O que sei é que a situação montou num lado da praça um palanque de madeira onde músicos locais fariam um forró, regado à cachaça com ki-suco. Guedes, responsável pelo comitê local do Proler, passou a tarde misturando os ingredientes em tonéis imensos. A oposição contratou um grupo famoso, "Brasas do NE", se não me engano, que chegou com duas carretas cheias de equipamentos moderníssimos de som e iluminação, com direito a fumaça e milhares de decibéis. Uma das carretas virava um palco, onde naquela noite moças bonitas se requebravam ao som de "é o tchan", participando inclusive de um concurso. Quem é a melhor, a lourinha ou a morena? O MC, ajoelhado entre as duas, enfiava o nariz "lá" e perguntava quem tinha o melhor cheirinho, se a lourinha ou a moreninha. O público aplaudia, animado. Tomava uma cachacinha num lado da praça e ia apreciar as beldades do outro. Lá pelas tantas, uns e outros "apagaram" pelas esquinas e becos, nos bancos da praça, ao longo das paredes da igreja matriz. Foi uma festa e tanto. Não soube até hoje quem ganhou a eleição. Bicudos e Bacurau amanheceram, certamente, com uma dor de cabeça daquelas.
No último dia, um almoço de confraternização comemorou o sucesso do primeiro encontro do Proler. As professoras embarcaram nos dois caminhões caçamba, levando pro outro lado da serra novas práticas, técnicas e sugestões para incentivar a leitura e a escrita em suas salas de aula.

Os dois caminhões de professores

...que vieram de trás daquela serra...

Nós nos despedimos do Tenente e embarcamos na Besta ruminando sentimentos e emoções, reflexões sobre nosso papel como educadores nesse "mundão veio sem porteira".

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