Leitura e Escrita: Ainda desafio para o próximo milênio
I Encontro de Leitura da Biblioteca Municipal de Boa Vista do Tupim - BA
I Encontro de Leitura da Biblioteca Municipal de Boa Vista do Tupim - BA

Dessa vez a aventura foi no interior da Bahia, em Boa Vista do Tupim. Fui de avião até Brasília, onde troquei de aeronave para seguir até Lençóis, na Chapada Diamantina, um lugar que sempre tive loucura para conhecer.
O vôo foi meio atribulado, com bastante turbulência. Chegou a parecer que estávamos andando de carroça numa estrada de terra esburacada...
A visão da chapada é algo indescritível. O Cânion, iluminado pela luz dourada do sol baixo, projetando sombras imensas é de uma beleza surpreendente.
A pequena aeronave pousou e em poucos instantes os passageiros se dispersaram. Em alguns minutos os funcionários saíram do balcão de atendimento, apagaram as luzes, deixando acesa apenas uma arvorezinha de Natal. Não havia ninguém me esperando. Eu não tinha o telefone de ninguém... Estava começando a anoitecer. Liguei para casa, pedindo que meu marido fizesse contato com a Casa da Leitura. Instantes depois voltei a ligar. Era feriado no Rio e não havia ninguém por lá. O aeroporto estava fechando, não haveria mais vôos naquele dia. Falei com um guarda que, solícito, arranjou um catálogo telefônico de Boa Vista. Havia o telefone de uma farmácia e de alguns assinantes, mas nenhum número da prefeitura. Liguei pra farmácia, perguntei se por acaso eles não tinham o telefone da prefeitura. Nada. Um homem que estava sentado no saguão pediu licença e disse ser taxista. Se eu quisesse, ele poderia me levar a Lençóis, vinte minutos de distância. Eu poderia passar a noite e no dia seguinte decidir o que fazer. Quase aceitando a proposta, quando um rapaz esbaforido vem chegando e pergunta se sou a dona Christianne.
Desculpou-se pelo atraso, dizendo que furou o pneu de seu carro. Teríamos que ir a um borracheiro, pois enfrentaríamos pela frente duas horas e meia de viagem. Eu poderia ficar no aeroporto (já às moscas) ou ir com ele. E lá fui eu. O automóvel era um Passat ou algo do gênero, bem rodado. E enquanto rumávamos para a oficina, a noite caiu. Lá estava eu com dois estranhos, perdida numa borracharia no interior da Bahia. Pensei em minha filha, com cinco anos naquela época, e no trabalho que eu dava pro meu anjo da guarda. Coitado, não dou sossego pro pobre! Aos poucos fui descobrindo que estávamos na BR 242, que liga Salvador a Brasília. Remendo feito, seguimos viagem. A buraqueira me fazia sacudir no banco de trás e o motivo, me disse o motorista, é que a estrada é perigosa, por onde transitam caminhões e carretas carregadas em alta velocidade para fugir dos assaltantes, que costumam esconder-se no matagal perto das grandes crateras que obrigam os motoristas a reduzir a velocidade! Por isso ele chamou um colega para acompanha-lo.
Respirei fundo e procurei relaxar. Seja o que Deus quiser, pensei com meus botões. De vez em quando olhava pro céu, que o breu da noite fazia cintilar com zilhões de estrelas. Há beleza em tudo, é uma questão de estar atento...
Horas depois chegamos. Ficaria hospedada na casa do prefeito, que estava conversando com seus correligionários na varanda quando cheguei. Na manhã seguinte ele e a mulher viajaram, deixando-me entregue aos cuidados de Maria, um amor de pessoa, grande cozinheira, com quem conversava na hora do almoço e no final da tarde, curtindo a rede da varanda.



Minha oficina - Leitura e Imagem - foi uma delícia.
Os professores são muito comprometidos e conscientes de sua realidade. A região passava por reforma agrária, com muitas propriedades ocupadas pelos Sem Terra, com acampamentos e assentamentos improvisados com barracas de plástico preto. Alguns professores moravam em um povoado de onde saiam a pé por estradinhas de terra até uma vicinal, onde conseguiam carona até a BR para pegar um ônibus ou outra carona. Saltavam mais adiante, para pegar outra vicinal e outro caminho de terra, às vezes no lombo de um jegue (custava R$ 5,00 um jegue naquela época). Vida dura. Pra dar aula sob uma lona, ou sob uma árvore, com pouco ou nenhum material, sem livros nem material de apoio. Na maioria das vezes era preciso dormir no assentamento. Leitura de mundo, leitura de imagem. A oficina precisou ser reestruturada, pois meu planejamento inicial, diante da realidade encontrada, não fazia muito sentido. Mas planejamento é assim. Precisa ser revisto, refeito, jogado fora pra começar tudo de novo. Que bom!
Sem livros de imagem, começamos a ler o entorno, a paisagem da janela, a paisagem relembrada pelos caminhos, o que se vê ao redor e dentro de um assentamento... O que vemos na TV. A quem interessa, como os fatos são manipulados e apresentados.
Conseguimos algumas revistas e começamos a pensar na estrutura de um telejornal. Em grupos, cada qual com uma seção, fomos definindo as notícias, as matérias, as entrevistas, as chamadas. Uma mesa com as pernas pro alto virou a tela da TV e as imagens foram construídas com recorte, colagem e desenhos. O grupo produziu um telejornal crítico, denunciando os desmandos de uma Bahia governada por ACM. Nos divertimos muito nos três dias do encontro, refletindo sobre os desafios para o próximo milênio na sala de aula.







O encontro terminou no meio da tarde e meu vôo seria no dia seguinte, às quatorze horas. Liguei para uma pousada em Lençóis, consegui um ótimo desconto para uma estadia de menos de 24 horas e lá fomos nós pela 242, dessa vez com dia claro. Pude avaliar melhor o tamanho da "roubada". A estrada é um monte de crateras cercadas por um pouquinho de asfalto e as crianças, correndo muitos riscos, ficam tapando os buracos com terra e pedindo dinheiro para os motoristas. Carcaças corroídas de caminhões e automóveis nas ribanceiras são a constatação do descaso do governo com as rodovias do país.
Chegamos em Lençóis ainda com luz do dia. Larguei a mala no quarto e saí pela cidade, deslumbrada, tirando fotos das fachadas dos casarões coloniais, viajando no tempo na chapada Diamantina.

A Pousada Lençóis
Quando escureceu totalmente, voltei pra pousada. Linda Pousada Lençóis. Meti-me na piscina, com uma cervejinha gelada na mão e o céu dos milhares de estrelas sobre a cabeça.Um sentimento de profunda gratidão tomou conta de mim. Que privilégio viajar pelo Brasil trabalhando com professores, compartilhando sonhos, esperanças, as dificuldades do caminho e de repente estar numa piscina de água morna, relaxante, podendo pensar na vida e agradecer a oportunidade de ali estar, em paz.
Acordei bem cedinho para poder aproveitar ao máximo o pouco tempo de estadia. A vontade de explorar o cânion era enorme, ver de perto uma cachoeira ou gruta daquelas anunciadas nos folhetos turísticos. Mas o risco de fazer isso sozinha é imenso e minha loucura não chega a tanto! (Pra alívio do anjo da guarda, que tem que estar com as penas sempre muito bem escovadas!).
Lençóis é um lugar muito lindo, cheio de História. Merece ser visitado com calma.
Saí de lá depois do almoço, feliz, com a sensação de missão cumprida.







Olá Christiane!! qdo foi esta viagem sua a Boa Vista do tupim?
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