
A cidade de Florânia, vista do alto
Já tinha participado de um encontro do Proler em Natal, RN e foi com grande alegria que recebi o convite para o primeiro encontro de Florânia, cidadinha no sertão do Seridó, alguns quilômetros depois de Currais Novos, uma das cidades importantes da região.
Cheguei um dia antes, ficando hospedada na casa da coordenadora do comitê de Natal, profa. Erileide Rocha. Hospitaleira, fez questão de me levar pra um passeio na orla e pra comer caranguejos numa praia badalada. No dia seguinte, uma "Besta" nos pegaria e ao restante do grupo, por volta das quatro da manhã, rumando para o interior. Depois longas horas de viagem, chegaríamos para a abertura do evento.
O motorista atrasou, se perdeu pelas ruas de Natal em seu roteiro para buscar os outros professores. O dia foi amanhecendo e entre bocejos e cochilos o sol foi subindo e as paisagens se sucedendo a mais de cem quilômetros por hora.

Sertão do Seridó até então era uma mancha amarelada no Atlas, nas aulas de geografia. Sempre tive curiosidade de conhecer a região. Muita estrada, muito chão. Zona da mata, planalto da Borborema, chapada do Araripe. Currais Novos, a entrada para Caicó, Florânia.


A chuva dos últimos dias, coisa rara, tinha feito a vida retornar. Nas poças, lagoas e pequenos açudes ao longo da estrada, pássaros se refrescando, patinhos nadando. Tudo verde, exuberante, por pouco tempo, segundo disseram, até a água secar.

Quando chegamos, sol alto, calor abrasador, o galpão do Clube Municipal lotado à nossa espera.
Com o tema "Leitura e Escrita: ainda desafios para o próximo milênio", o encontro trouxe professores de diversas localidades da região para as palestras e mini-cursos. Minha oficina "Leitores de Histórias" atraiu muitos interessados. Como palestrante na abertura do encontro, me aproximei da platéia, procurando estimular um clima informal, de conversa, troca de experiências e informações. A gente que chega de longe precisa ter a humildade de ouvir, escutar e aprender com aqueles professores que andaram muitos quilômetros na caçamba de um caminhão adaptado para o transporte de pessoas, numa localidade aonde o jornal só chega na casa das professoras com muito atraso, embrulhando as verduras da feira... Na biblioteca da escola, livros antigos, revistas velhas e mil vezes manuseadas pelas mãos ávidas por informações. Começamos com a história do próprio nome, que alguns desconheciam e vamos aprendendo que muitos são de famílias grandes, de oito, nove irmãos, todos com a mesma inicial no nome. Alguns homenageando santos da devoção da mãe, da avó, agradecida pelo milagre alcançado num parto difícil, numa gravidez de risco. Muitos têm nomes criados pelos pais, uma parte do nome de um com outra parte do nome do outro, outros homenageiam um avô ou avó querida, um parente falecido. E as histórias vão se desenrolando. Como os pais ou avós lá chegaram, de onde vieram. Com poucos livros para ler, ou mesmo sem nenhum, que histórias contar? E vamos descobrindo segredos daquele lugar distante, perdido no sertão do Brasil. Foi lá que começou a lenda da Santa Menina, que tem distribuído curas e milagres para a população. A menina saiu de casa para ir à escola. Saiu cedo, pois precisava caminhar algumas horas na madrugada escura até chegar à sala de aula, coisa comum no nosso país de distâncias descomunais. Perdeu-se. Não chegou na escola, não voltou pra casa. Muitos dias ficou desaparecida até encontrarem seu corpinho recostado sob uma árvore. Intacto, sem sinais de deterioração. E assim permaneceu e está até hoje, em um esquife de vidro na capelinha construída ao lado da Igreja no alto do monte. Peregrinos fazem a via crucis, carregando pedras morro acima, pagando promessas. Lá do alto avista-se um horizonte quase infinito, sob a proteção de Frei Damião e Santa Menina.

A fazenda



Fiquei em pé, sem saber o que fazer até que estouraram as gargalhadas. "A carioca levantou poeira fugindo do quarto especial!" E eu então pedi que tratassem de me arranjar uma rede, pois sozinha lá no fundo do corredor eu não ficava. O capataz apareceu com uma, que me acolheu muito bem naqueles três dias do encontro. À noite, acomodados nas redes ficamos ouvindo música e conversando até que o sono chegou. Mas a lâmpada, pendurada num fio comprido que vinha lá do alto do telhado de telhas vãs ficou acesa. Alguém fez o comentário - "quem é que vai apagar a luz?" Após alguns instantes sem resposta, a lâmpada se apagou. Um silêncio denso caiu sobre nós com a escuridão e um gaiato do grupo então disse "êêêêêêê..." e todos caímos na gargalhada.
Quando o dia começou a clarear, acordei com o canto da passarinhada. Pelas frestas do telhado, uma luz dourada foi iluminando nosso ambiente e algo mágico aconteceu. Na parede do fundo formou-se a imagem invertida da paisagem lá de fora. Durou pouco, alguns instantes, mas o princípio da fotografia aconteceu ali, diante dos meus olhos, deitada numa rede em um casarão centenário. E o dia acendeu de vez deixando aquela imagem insólita pra sempre na minha mente.
No dia seguinte, perguntaram onde estávamos hospedados e quando souberam, entreolharam-se de modo suspeito. Quando indagamos o motivo daquela atitude, disseram ser a fazenda mal assombrada. O fantasma de um tenente foi diversas vezes visto por lá. E contaram que tempos atrás, a matriarca da família acoitou um tenente foragido. Encontrado por seus perseguidores, foi assassinado e sua alma nunca descansou. Na mesma hora lembramos do portãozinho "automático" e da lâmpada que se apagou e constatamos que o tenente deveria ter ficado feliz com nossa presença, tratando-nos com carinho e atenção. Mas que dava um certo arrepio na hora de passar pelo corredor escuro pra ir ao banheiro lá isso dava.
Estávamos em véspera de eleições municipais. À noite haveria dois comícios. O prefeito, que apoiou o encontro, era candidato à reeleição. A oposição, visivelmente com maior poder aquisitivo, organizou uma carreata no centro da cidade: três carros circulavam com pessoas jovens, gritando e empunhando bandeiras do partido. Eram os "Bicudo" e os "Bacurau". Não lembro quem era quem. O que sei é que a situação montou num lado da praça um palanque de madeira onde músicos locais fariam um forró, regado à cachaça com ki-suco. Guedes, responsável pelo comitê local do Proler, passou a tarde misturando os ingredientes em tonéis imensos. A oposição contratou um grupo famoso, "Brasas do NE", se não me engano, que chegou com duas carretas cheias de equipamentos moderníssimos de som e iluminação, com direito a fumaça e milhares de decibéis. Uma das carretas virava um palco, onde naquela noite moças bonitas se requebravam ao som de "é o tchan", participando inclusive de um concurso. Quem é a melhor, a lourinha ou a morena? O MC, ajoelhado entre as duas, enfiava o nariz "lá" e perguntava quem tinha o melhor cheirinho, se a lourinha ou a moreninha. O público aplaudia, animado. Tomava uma cachacinha num lado da praça e ia apreciar as beldades do outro. Lá pelas tantas, uns e outros "apagaram" pelas esquinas e becos, nos bancos da praça, ao longo das paredes da igreja matriz. Foi uma festa e tanto. Não soube até hoje quem ganhou a eleição. Bicudos e Bacurau amanheceram, certamente, com uma dor de cabeça daquelas.
No último dia, um almoço de confraternização comemorou o sucesso do primeiro encontro do Proler. As professoras embarcaram nos dois caminhões caçamba, levando pro outro lado da serra novas práticas, técnicas e sugestões para incentivar a leitura e a escrita em suas salas de aula.
Nós nos despedimos do Tenente e embarcamos na Besta ruminando sentimentos e emoções, reflexões sobre nosso papel como educadores nesse "mundão veio sem porteira".



NOSSA QUANTA SAUDADES NAO SEI NEM TANTO O QUE DISER DE MINHA TERRA TERRA ESTA TAO LINDA E TAO BELA POIS ESTA TERRA FOI TESTEMUNHA DE MEU NASCIMENTO E TAMBEM DE MEUS PRIMEIROS PAÇOS TAMBEM FOI AI NESTA LINDA E INESQUECIVEL TERRA QUE PASEI MINHA INFANCIA MINHA ADOLESENCIA EM FOI AI QUE FUI FELIZ DE VERDADE TERRA QUE ME EMOCIONA SO DE VER SENTIR O MEU CORAÇAO CHORA POR TUDO QUE PAEI QUE VIVI E QUE SENTI NESTA LINDA CIDADE HOJE CARREGO EM MINHA MENMORIA AS BELAS IMAGENS DE MINHA VIDA NESTA TERRA DAS FLORES AI DEICHEI GRANDES E BELOS AMIGOS PESSOAS QUE FORAM E SEMPRE SERAM ESPECIAIS PARA MIM UMAS QUE SE FORAM E OUTRAS QUE FICARAM PARA FAEREM O MEU CORAÇAO CHORAR DE TANTAS LEMBRANÇAS BELAS DE MINHA CIDADE OBRIGADO GENTE POR ME PATROSINAR ALGO TAO LINDO FELICIDADES A TODOS DE MINHA TERRA.........
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