Poucos dias depois do atentado às torres de N. York, embarco para Macapá um tanto apreensiva. Olhares se cruzavam no saguão do aeroporto, parecendo buscar cumplicidade, demonstrando o mesmo sentimento. Na aeronave, um clima um tanto pesado denunciava as mesmas angústias.
Após atingirmos a altitude de cruzeiro, comecei minhas leituras de bordo. Uma fotografia das mãos queimadas de duas crianças na primeira página do Jornal do Brasil de 25 de setembro me deixou estarrecida. Dois irmãos, pegos escondidos lendo um "gibi violento", foram castigados pela mãe, que os queimou com uma frigideira quente. A caminho de um encontro do Proler, fico pensando nesse nosso país de tantas incongruências. A mãe dizia estar educando, querendo evitar que seus filhos tivessem contato com a violência!
Na revista Ícaro encontrei o artigo do empresário Robert Wong falando sobre o modo como as experiências da infância marcam a pessoa pelo resto de sua vida. Não pude deixar de pensar na história daquelas crianças, em sua relação com a vida e com a leitura. Ele relata então como vem conseguindo organizar empresas seguindo princípios da cultura oriental, na qual foi educado.
Imediatamente comecei a repensar minha palestra, a partir das relações que pude construir com a leitura dos dois textos e das minhas experiências pessoais com projetos e programas de incentivo à leitura. Foram conexões muito interessantes, que provocaram reflexões durante a palestra.
Nas oficinas, costumo me deparar com professores que não são leitores, que odeiam escrever e não sabem o que fazer para que seus alunos gostem de ler. Motiva-las é um grande desafio. Acostumados às muletas do livro didático, presos na grade escolar, muitos deles esqueceram (se é que algum dia conheceram) o prazer de aprender e ensinar e muitas vezes não gostam do que fazem, reclamado do salário, dos parâmetros curriculares, de novos métodos que lhes são impostos.
Sobrevoando a floresta, vi sinuosos rios de prata cintilarem banhados pela lua crescente. Lá em baixo, a floresta amazônica escondia mil segredos na escuridão.
Já no quarto do hotel, me surpreendi com uma borboleta na minha perna. Boa recepção, pensei, pra quem veio falar sobre o "sonho de voar".
Na "Panela do Amapá" começamos o dia, com muito calor, no "meio do mundo", onde aprendi que a gente pode ficar "despombalecida da vida"!
No caminho de volta pro hotel, passamos pela avenida que margeia o Rio Amazonas, espantoso, imenso rio mar, que era antes apenas um risquinho azul no mapa. No final da tarde, a surpresa com a incrível amplitude de maré e o espetáculo da lua e de um arco íris que mergulhava nas águas escuras e cheias de mistérios amazônicos.
Meu primeiro contato com os participantes da oficina não foi dos melhores. A maioria tinha sido, de certo modo, obrigada a comparecer. Muitas receberam um telefonema às 10 horas da noite do dia anterior, com a convocação para o encontro. Um certo desconforto circulou em nossa roda de abertura. Respirei fundo e mergulhei de cabeça no novo desafio. Ao longo da primeira tarde as pessoas foram "amolecendo", se envolvendo e demonstrando interesse. O segundo dia de trabalhos começou num clima melhor. Minha palestra pela manhã foi muito bem recebida. Houve um ótimo debate, num auditório lotado, com grande participação de todos. A mudança para uma sala mais aconchegante contribuiu para o sucesso da tarde. Já havia um ambiente de maior cumplicidade entre nós. Parte do terceiro dia tinha sido destinado à reflexão, ao planejamento em grupo de atividades, e também à avaliação. Pude perceber a grande dificuldade dos participantes em colocar suas idéias no papel. Me pareceu que não estão muito acostumados a essa prática, mas conseguimos bons resultados.
Conheci pessoas muito interessantes. Fiz novos amigos. Marta, Dulcilene, Vera, o pessoal da organização. Fui muito bem recebida, com muito carinho. Gostei de conhecer a Marianna Natoli. Amei os sorvetes que a Socorro levou no meio da tarde! De todos, acabei tendo mais contato com o Breves, de Fortaleza. Adorei conhece-lo. Conversamos muito, afinal só havia nós dois de fora no hotel. Aliás, faz falta um tempo nos encontros para que a gente possa conhecer melhor os profissionais do próprio local. A gente acaba ficando meio isolado no hotel. Muitas vezes as pessoas acham que a gente não quer esse envolvimento, mas acho isso uma bobagem. Trocar experiências é sempre enriquecedor.
Outra surpresa (um presente, eu diria) foi a revoada de andorinhas (as "pomborinhas", como diz a Andaraluna). A caminho da livraria Transa Amazônica no final do dia, Angela parou num sinal de trânsito justo na hora em que milhares de andorinhas surgiram de todos os cantos, em revoada, para pousar nos fios daquela esquina. Todos os dias elas fazem isso, no mesmo local, na mesma hora. E dessa vez, eu estava lá. Foi demais.
Mas as surpresas não terminaram aí. Na beira de um pier que avança rio adentro e que tem até um bondinho pra quem não quiser se cansar, vimos chegar o vento, um ventaréu destamanho que derrubou cadeiras e com ele uma chuva torrencial de lavar a alma, que em instantes passou.
Na Fortaleza, deu pra sentir um arrepio estranho, uma sensação esquisita naquele cair de tarde.
E os sorvetes? Açaí, tapioca, murici, cada um mais gostoso que o outro.
Não posso deixar de falar na livraria da Angela. Sua Transa Amazônica é mesmo especial. Numa rua simpática, uma casa chama a atenção. Uma porta de vidrinhos quadrados se abre pra um ambiente mágico, com todos aqueles livros que a gente quer ver, quer ler e ter. Angela escolhe a dedo seu acervo de preciosidades. Uma porta nos leva pra outra sala com uma grande mesa cheia de livros e muitas estantes. Desta nova sala se pode sair para um aconchegante jardim na frente da garagem, que se abre para eventos de poesia, contadores de história e outras delícias. Dali também a gente pode passar pra dentro da casa. E a casa da Angela é um capítulo à parte. Objetos antigos, peças interessantes, que se juntam a outros livros - o paraíso - pra quem, como eu, gosta de livros, objetos antigos, histórias de antigamente. Foi identificação a primeira vista! A mãe da Angela faz lindas colchas de retalhos e pude ver montes daqueles pedacinhos coloridos que ela organiza pra transformar em arte. Tomamos café e bolachas numa cozinha especial. Tudo ali é especial e único. Os móveis, os objetos. Todos parecem personagens saídos dos livros. Todos têm um encanto especial, têm vida. Uma casa livraria, uma livraria que é casa. Como me senti em casa, na casa da Angela! E ainda por cima, ganhei de presente um livro lindo, que não conhecia e por quem havia me apaixonado na véspera: Álbum de Retratos, do Jorge Fernando dos Santos, com ilustrações da Ana Raquel.
Não podia ir embora sem um modelo de barco do Rio Amazonas. Tenho um "passado náutico-marítimo" e coleciono brinquedos populares. Mas no centro de artesanato não encontrei o barco que eu imaginava. O que eu queria, uma miniatura feita de "miriti", só fui encontrar na feira agroindustrial, na sexta feira a noite. Mal entramos na feira, dou de cara com um estande de barcos. De todos os tamanhos, lindos. Perfeitas réplicas dos que navegam naquelas águas.
Assistimos na maloca desta feira alguns grupos de dança, entre eles uma apresentação de "Marabaixo". Mulheres idosas e crianças, dançando ao som do batuque. Vi ainda dois grupos que chamavam muita atenção pela indumentária magnífica, super colorida. Eram da Guiana e iam se apresentar mais tarde.
Da feira fomos pra um balneário na beira do rio tomar uma cervejinha e comer camarão e peixe, que ninguém é de ferro. Em companhia de Herbert, Adriana, Andréia e Breves, passamos momentos deliciosos.
No aeroporto uma cena insólita: ao lado do detetor de metais desligado, o fiscal da aduana nos perguntou se estávamos levando perfumes e se portávamos armas. Como nossa resposta foi negativa ele nos deixou passar, confiando em nossa palavra e desejando uma boa viagem. Breves e eu demos boas risadas!
CRIAR
Há 16 anos
Nenhum comentário:
Postar um comentário