quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Encontro do Proler em Cataguases, MG

Diário de Bordo


Olho pro céu de Cataguases e vejo aquele amontoado cinza chumbo de água que está por vir, de água que ainda não é, mas que quando decidir ser, vai ser pra valer. (Hoje cedo soube que na cidade vizinha até pedra caiu do céu, mas aqui, nem uma gota!)
É chuva das boas pra refrescar o calor demais-da-conta que aconteceu o dia todo.
Por essa janela também vi as montanhas de Minas indo embora de trem pra algum lugar. Um trem preguiçoso, interminável de ferro, levando ferro.
Os relâmpagos de agora reavivam em flashes os acontecimentos dos últimos dias. A fala de um, o sorriso de outro.
Participar de um encontro do Proler é sempre uma aventura inesperada rumo a um conhecido desconhecido.
A gente nunca sabe o que vem pela frente. Mas mesmo assim a gente vai, de peito aberto, pois sabe que vai encontrar gente sensível, interessante, interessada.
Em Macapá foi o Breves, a Angela, a Adriana, a Andreia, Marta, Dulcilene...
Em Cataguases a Rona, o Márcio, viajantes como eu, carregando malas pesadas de sonhos. "O que pesa mais, um kg de amor ou um kg de saudade?" Não sei ainda, Rona, acho que a saudade pesa mais. O amor é leve, muitos kg não pesam nada!
Como é bom andar pelaí fazendo e falando do que a gente gosta.
Aprendendo tantas coisas, tantas coisas...
E ligar pra casa e ouvir aquela falinha doce dizendo "mamãe, você é um poema pra mim".
E a gente conhece livros novos, leva pra casa um doce diferente, um brinquedo da feira, um pano bordado.
E vai conhecendo esse Brasil de tantas brasilidades diferentes, com tantos sotaques, cheiros e paladares.
E vai vendo nos professores as mesmas angústias, dificuldades. "Os meninos não gostam de ler"; "Eu detesto escrever".
Mas vem uma e fala de sua experiência, mostra uma solução e vem a troca.
A gente se surpreende (pra mais e pra menos também!)
A gente se emociona, se diverte.
Sua a camisa, pergunta se vale à pena. E repensa, e rumina pensamento, e muda o roteiro, joga fora o planejamento e tira livro da mala, e tira livro da mala e fala de suas paixões.
E bota no coração mais um tanto de gente que a gente nem sabe se um dia vai tornar a ver, mas que não esquece nunca. Eliane, Daniela, Alvina, Paula,Ariene e as outras companheiras do Proler da cidade, os alunos da oficina. O Ricardo poeta, com muitas coincidências e amigos em comum, que nos presenteou com seu trabalho.
Surpresas a cada momento: na mala agora vai junto um "barco" de sementes que voam que a Leise descobriu e que o Marquinhos e a Érika ajudaram a catar; doces sabores da quituteira; poemas e imagens da cidade; depoimentos dos companheiros da oficina.
Hoje nos emocionamos, choramos com o texto que a Ivânia levou, com o diário de bordo da Celmi.
Levo ainda comigo um novo amigo - o Marquinhos - e seu sensível e delicado trabalho de arte. Uma caixinha mágica, um senhor presente! O bilhetinho carinhoso da filha da Terezila, que adorou brincar com os objetos voadores que sua mãe aprendeu a fazer na oficina. Um barquinho com capota, feito pela Maria Cristina.
A mala está quase pronta pra volta. Retomar pendências, projetos, tarefas interrompidas. Mas já sinto saudades das risadas com Marcio e Rona, divertidos e agradáveis companheiros. Vou sentir falta deles.
Valeu, Cataguases!
Você agora não é apenas um nome qualquer no mapa. Você agora faz parte do meu mapa.

Christianne Rothier
Cataguases, 8 e 9 de novembro de 2001

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